Tuesday, February 01, 2005

Contra moinhos e ventos

A bordo do fiel Rocinante --que pode ser um carro do ano ou confortáveis sapatos velhos--, sai quase que diariamente para enfrentar moinhos de ventos como se fossem terríveis inimigos a serem inexoravelmente abatidos.
Quixote e de triste figura, mas imbuído às vezes dos mais belos sonhos, busca sobrepor todos os obstáculos --afinal, há uma Dulcinéia a proteger e todo um mundo a desvendar.
A loucura do Don Quixote inspira e norteia na busca das utopias. Ora mais ora menos febril que o esquálido personagem de Cervantes, identifica-se com sua bravura e bravatas, porque as vicissitudes do mundo sempre se colocaram como grandes obstáculos, ainda que fruto da delirante e/ou fértil imaginação, a transpor ou pelo menos compreender --muitas vezes sem êxito.
Mas eis que se meio que irreal, esta visão digamos quixotesca da vida delineia mais e melhores jornadas, edulcora as paixões, aquece o coração no compartilhamento das generosidades. E torna qualquer empreitada uma aventura, às vezes mais, às vezes menos errante, nunca insossa ou fútil.
Das paixões, então, nem se diga: são saboreadas como a última gota do derradeiro córrego à margem do deserto. Das lutas verdadeiramente vãs --o que fazer da criança triste e abandonada? a que demanda social efetivamente pertinente atender? onde está a justiça que deve ser protegida, meu Deus?--, às escolhas mais densas e pessoais --como amar aquilo que de mim se afasta? quais argumentos confrontar com as tiranias e as desigualdades?--, chega-se à transitoriedade da vida, que é o vento que faz girar as pás dos moinhos da existência aparentemente inútil.
O movimento --necessariamente a favor --demonstra o contrário, porém: sim, há um a batalha a ser lutada lá fora e aqui dentro, nem que seja ela apenas a justificativa para se manter em pé e alerta, porque é a sua presença que torna esse mundo real.
Se a realidade muitas e muitas vezes se delineia cruel e desanimadora, paciência: há uma lança, um cavalo magro e uma armadura, ainda que capenga, a de que se valer nesta passagem por esta terra. E uma Dulcinéia a conquistar e proteger.
Num devaneio de madrugada de sábado, na incontrolável necessidade de mudar o mundo, necessidade essa que graças aos céus permanece adolescente no coração, assim como a capacidade de amar a si a ao outro, há de se convencer de que há mais um e mais um dia a ser intensamente vivido. Portanto, trata-se de sair por aí cantarolando, feliz no dorso do Rocinante que a boa sorte reservou.

Luiz Caversan é jornalista e escreve para a Folha Online aos sábados
E-mail: caversan@uol.com.br

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